Quem foi ao supermercado nesta semana sem dúvida sentiu uma grande diferença em relação aos últimos 50 anos.Isso porque desde quarta-feira, 25, as tradicionais sacolinhas plásticas não estão mais disponíveis gratuitamente na maioria dos estabelecimentos de todo o Estado de São Paulo, incluindo a Região Metropolitana de Campinas (RMC).
De acordo com números divulgados pela Associação Paulista de Supermercados (Apas), 700 lojas do comércio e supermercados da região não estão mais distribuindo as sacolas, o que representa 95% dos estabelecimentos. Entre os que não seguiram a campanha “Vamos Tirar o Planeta do Sufoco”, parte alega que ainda tem sacolas plásticas em estoque e que utilizará até o término do produto. O restante afirma que só vai apoiar o acordo depois de avaliar a aceitação do consumidor. Na RMC, Monte Mor foi a primeira cidade a abolir sacolinhas plásticas. Americana implantou por meio de lei a medida, no entanto, a iniciativa foi suspensa pela Justiça.
De acordo com Maria Izabel Fontanella, gerente Administrativa do supermercado Ferrari, em Jaguariúna, uma pesquisa foi feita com os concorrentes e que ainda estão fazendo a distribuição. “Não existem uma obrigatoriedade para que todos parem, é apenas um acordo. Além disso, fizemos uma consulta aos concorrentes e ninguém deixou de distribuir sacola, então também não vamos parar. Não podemos perder venda”, afirma ela, garantindo que a decisão pode ser mudada. “Colocamos cartazes pelo mercado para avisar que também temos à venda as sacolas retornáveis. Conforme o cliente aderir e se acostumar com a campanha, vamos diminuir o número de sacolas. Será um processo gradativo”, revela.
A medida, comum em diferentes países europeus, foi adotada, segundo o Governo de São Paulo, para reduzir o impacto ambiental causado pelo despejo de 5,2 bilhões delas no Estado. Com esse número de adesões até agora, a Apas acredita que, ao ano, 700 milhões de sacolinhas deixarão de ser usadas somente na RMC. Vale lembrar que a sacolinha descartável à base de petróleo, que é utilizada atualmente, leva de 100 a 300 anos para ser incorporada ao solo. Já a biodegradável, que é feita de material renovável (amido de milho, mandioca e batata), se desfaz em até 180 dias em usina de compostagem ou em dois anos em aterro. “A mudança de comportamento requer um esforço conjunto. As ações foram programadas e não haverá nenhuma surpresa ao chegar às lojas. Os consumidores foram informados, e muitos deles, inclusive, já utiliza faz algum tempo as sacolas reutilizáveis ao invés das tradicionais sacolas descartáveis”, afirmou o presidente da Apas, João Galassi, durante encontro com a imprensa da região na terça-feira, 24.
Sem as sacolinhas, os paulistas terão que se condicionar a usar outros métodos para descartar o lixo doméstico. Duas soluções já começam a se tornar comum: usar o lixinho sem proteção alguma (com o trabalho de ter que lavar a lixeira depois) ou colocam jornais velhos para forrar o lixo e depois jogar em um saco de lixo grande.
Decisão acende polêmica entre associações
A decisão da retirada das sacolinhas vem provocando uma grande polêmica. As principais reclamações por parte da população ficam por conta das pessoas que vão aos supermercados de ônibus ou de motocicleta, não conseguindo carregar as compras nas mãos ou em caixas de papelão. A parte econômica também tem gerado discussão. Isso porque, a medida transfere para o consumidor um custo que já vinha embutido no preço das mercadorias, sem a contrapartida de redução dos preços dos alimentos e produtos de higiene e limpeza. Para colocar lenha na fogueira, os fabricantes de sacolas, representados pela Associação Brasileira de Embalagens Plásticas Flexíveis, dizem que o acordo entre os supermercados e o Estado é apenas um engodo à população, que tem como objetivo verdadeiro melhorar a imagem do governo e encher ainda mais os bolsos das grandes empresas que dominam o setor, além de trazer uma economia aos comerciantes de aproximadamente R$ 500 milhões. A Associação afirmou que a iniciativa deveria ser feita através de medidas educativas e que a retirada pode causar demissões de trabalhadores no setor.
Os supermercados, por sua vez, se pronunciam através da Apas, dizendo que a venda das sacolas, agora biodegradáveis, não resultará em um centavo de lucro às redes e sim para iniciativas sustentáveis. A Apas defende que a medida foi aprovada pela população. De acordo com uma pesquisa encomendada, 77% dos entrevistados foram favoráveis a não utilização de sacolas descartáveis nos supermercados e 73% não concordam com o retorno das sacolas. Já para ambientalistas e gestores públicos, a medida tem um importante valor simbólico. Apesar de as sacolas só representarem uma pequena parcela do volume total de lixo descartado, a ideia tem o mérito de trazer para o cotidiano das pessoas a preocupação com a sustentabilidade.
Consumidores já têm novas opções
Meses antes da entrada em vigor do acordo, alguns supermercados afirmavam que não deixariam os consumidores órfãos e a promessa está sendo cumprida.
Mesmo antes do dia 25, os consumidores já encontram uma série de opções para substituir as sacolas plásticas tradicionais. Ao menos oito tipos diferentes de bolsas reutilizáveis - feitas de lona, de algodão, de plástico reciclado de garrafas PET, de tecido TNT e de ráfia (tipo de plástico conhecido como polipropileno) - já podem ser compradas em alguns estabelecimentos, por preços que variam de R$ 1,99 a R$ 13,90, dependendo do modelo escolhido. Alguns supermercados já estão oferecendo as sacolas biodegradáveis pelo valor de R$ 0,19 a R$ 0,25 por unidade. Existem também carrinhos com bolsas adaptadas e caixas de plástico dobrável. “O consumidor pode utilizar o carrinho de feira e a caixas de papelão”, comenta João Galassi, afirmando que ONGs que produzem o material devem procurar a Apas para oferecer o produto. “Com isso o preço das sacolas deve ser reduzido e a quantidade do produto deve crescer de forma considerável em pouco tempo”, conclui. (T.M).




