O Estádio Municipal Alfredo Chiavegato sediou o último jogo da Copa São Paulo de Futebol Júnior (Copinha) no sábado, 21, com um saldo positivo em seus bastidores: a coleta de latinhas de alumínio pela estudante Kátia Cristina Geraldi, 32 anos, moradora do Nassif.Em dois dias de jogo, ela acumulou três sacos de latas, coletadas nos arredores do estádio, que serão destinadas à reciclagem.
Para a estudante, já acostumada com a prática da coleta em locais de festas na cidade, foi fácil encontrar as latinhas, a maioria comercializadas pelos ambulantes e jogadas nas calçadas ou nas ruas pelos torcedores. A proximidade da casa com o estádio facilitou a tarefa de coleta feita com o seu carrinho de feira.
A contribuição de Kátia com índices oficiais de reciclagem de latas de alumínio para bebidas no País é indireta, já que ela não está cadastrada como catadora e a atenção para o lixo por sua parte não se limita a latinhas e nem mesmo aos dias de grandes eventos, está na rotina. Num dos cantos da cozinha ela mostra o recipiente onde separa o óleo usado e no cantinho do quintal, as garrafas pet, o papelão, etc., separados a partir de produtos consumidos por ela ou pela família.
Segundo o engenheiro florestal e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Laerte Scanavaca Júnior, não dá para eliminar o lixo, mas é possível diminuir sua produção a partir da redução do consumo e da reutilização sempre que possível.
O pesquisador destaca que é viável separar o lixo úmido ou de fácil decomposição, como os restos alimentares (quase 60%), do lixo seco, pois demora mais tempo para decomposição e ocupa muita área. “O lixo é caro, mas se for tratado de maneira adequada, pode ser muito rentável, evitando ou minimizando a poluição dos solos e águas”.
As ações de cada indivíduo, como as de Kátia, são fatores que geram mudanças para um mundo mais sustentável e contribuem para o equilíbrio entre produção e consumo.
Escola foi ponto de partida
Sem saber estimar quando começou a reciclar o lixo, Kátia diz que o tema foi tratado na escola e, a partir dessas abordagens, ela passou a cuidar do meio ambiente e a ter atitudes diferenciadas. “Assim me sinto bem, além disso, chamo a atenção das pessoas para essa questão”, relata.
Os vizinhos reconhecem o empenho da estudante e é comum levarem latinhas até a sua casa, onde há um quinta onde o material para reciclagem é feito e depois destinado aos recicladores ou para a venda.
Angela Geraldi, mãe de Kátia, reforça que esta atitude está incorporada nos hábitos da filha. “Quando vai caminhar comigo, ela sempre está atenta aos bueiros e terrenos baldios, e, se encontra uma caixinha de leite jogada no caminho, pega e separa para reciclagem e ainda chama a atenção das pessoas que jogam lixo na rua ou que desperdiçam água”, descreve.
O dinheiro da venda das latas, a R$ 2,30 o quilo, não é o que motiva as ações da estudante, mas com o que recebe, ela compra brincos ou pulseiras nas lojinhas e pastéis na feira nos finais de semana. “Já acumulei dez quilos de latas”, afirma.
Kátia Geraldi estuda no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) na Escola Municipal Maria Tereza Piva, de Jaguariúna. Ela foi vítima de um câncer maligno aos dois anos de idade. Na época, passou por uma cirurgia para a remoção do tumor no cérebro e perdeu a coordenação motora, passou por um tratamento intensivo e conseguiu se recuperar.
Benefícios são sociais e econômicos
Além dos benefícios sociais e econômicos, a reciclagem de latas de alumínio também favorece o meio ambiente. Segundo o Conselho Nacional de Política Ambiental (Copam), elas demoram cerca de 100 anos para decomposição. Outro fator que merece destaque é que o processo de reciclagem deste material utiliza 5% da energia elétrica e libera somente 5% das emissões de gás de efeito estufa quando comparado com a produção de alumínio primário.
De acordo com dados divulgados no segundo semestre do ano passado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas) e a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), o Brasil atingiu um novo índice de reciclagem de latas de alumínio para bebidas, que, pelo décimo ano consecutivo, é o maior do mundo. O País reciclou 239,1 mil toneladas de latas de alumínio para bebidas, das 245 mil toneladas disponíveis no mercado em 2010. Com isso, a reciclagem atingiu 97,6% das latas comercializadas, o equivalente a 17,7 bilhões de unidades.
Para o diretor executivo da Abralatas, Renault Castro, dois dos principais fatores que colaboram para manter o índice de reciclagem elevado da lata são: mais cidades com programas permanentes de coleta seletiva e uma maior conscientização da sociedade sobre questões de sustentabilidade. “Acreditamos que o número de municípios com coleta seletiva vai crescer com a implantação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Mas precisamos garantir a participação dos catadores nesse processo. Sem eles, o sistema não funciona”.
Segundo levantamento da Abralatas, a reciclagem de latinhas de alumínio movimentou cerca de R$ 1,8 bilhão em 2010. Somente a etapa de coleta injetou R$ 555 milhões na economia nacional, o equivalente à geração de emprego e renda para 251 mil pessoas.




