Pedrinho era descendente de escravos e morava na Fazenda Mingote, nos arredores de Vila Bonfim Paulista, distrito circunscrito à Comarca de Ribeirão Preto.Certa feita, o administrador da fazenda determina para que o carreiro conduza um lote de mercadorias, cujo destino era a fazenda Boa Vista, local distante, nos arredores de Francisco Maximiniano, que se situava no ramal de Jataí. O candeeiro Pedrinho, dominado por uma indescritível alegria , pela realização de longa viagem, se antepõe à frente do carro e da voz de comando aos seus dóceis bois, que o obedecem cegamente. O carro com os rodeiros a sulcar arenoso estradão e a chiar nostalgicamente, parte rumo à Fazenda Boa Vista.
Ante a beleza da mata fechada, que se lhe descortinava, entrecortada de centenárias árvores, apinhada de frutos e flores, pássaros a trinar nos emaranhados de cipós, que mais pareciam preguiçosas jibóias, fez com que o menino, não desse conta, de que o sapicuá de matula do carreiro havia caído no meio da empoeirada estrada.
O carro transpõe pontes e mata burros, atravessa porteiras barulhentas em seu caminhar de lentidão. Quando finalmente, atinge uma abandonada Santa Cruz, de escravo, brutalmente assassinado à beira da estrada, o carreiro ordena ao menino que faça parar o carro.
- Pedro – insiste o carreiro – traga-me o emborná de comida que esta preso no fueiro do carro, que estou com uma fome dos diabos!
- Sim, senhor! – retruca o candeeiro.
- Veja se não demora, então!
- Patrão, o embornal não está mais lá!!
- Como assim, seu desavergonhado de uma figa? Você não o deixou cair no meio do estradão e não me avisou?!
Pedro, perplexo, não sabia o que explicar, evidentemente sobre o paradeiro do sapicuá de matula. O carreiro se enfurece e tenta esganá-lo. O menino de joelhos, pede-lhe clemência, mas tudo em vão. O carreiro transtornado, de olhos esbugalhados, como se estivesse possuído de um espírito maligno, acabou por enforcar o menino candeeiro. E com uma frieza revoltante dependura o frágil corpo na copa de um centenário jequitibazeiro. E o seu corpo como uma flor púrpura, debruçado sobre a haste orvalhada, não passou despercebido aos vigilantes negros da floresta os urubus, que denunciaram a todos a crueldade desse crime.
A desventurada mãe, ao tomar conhecimento da morte do filho, roga-lhe a seguinte praga:
- Você, seu carreiro desalmado, matou meu filhinho por causa um sapicuá de pão, não é? Mas não se esqueça de que antes de sua morte, você haverá de mendigar um prato de comida. E quem lhe der de comer, que também o ponha em sua boca, porque suas mãos haverão de secar como um galho inútil de árvore. E isso aconteceu, pois que morrera abandonado num mísero casebre, implorando um pedaço de pão, com as mãos desfiguradas e totalmente desfibradas, por uma moléstia, que o torturou, até exalar os últimos suspiros na terra. Por esta razão, no dia de sua morte, dia de São Pedro, o seu protetor – 29 de junho – há um movimento incomum de fiéis, que se dirigem para a sua capelinha na ânsia incontida de serem distinguidos por uma graça especial. E Pedrinho, lá do céu, com seu espírito revestido de luz e candura, tem sido benevolente para com seus devotos deste Vale de Lágrimas. Pedrinho como frisei, era filho de escravos e morava na fazenda, primitivamente denominada da Fazenda Santana. Ao ser adquirida pelo Coronel Mingote, passou a ser mais conhecida pelo nome de Fazenda Mingote. Seus pais, que há anos serviam o Coronel Mingote, como prestativos escravos, chamavam-se João e Constância. A mãe era popularmente conhecida pelo apelido de Tiana. O carreiro de triste memória, que assassinou o indefeso menino, no ano de 1885, chamava-se Theodoro.
A Fazenda Boa Vista palco da dolorosa tragédia tem uma história longa e por coincidência ou não, no ano de 1947, era administrada pelo Sr. Zorzeu Gonçalves, tendo por esposa, a dileta Sr. Elmira Ferrari da sociedade jaguariunense.
Detalhes interessantes na próxima edição.
Manoel Seixas




